[caption id="attachment_2661" align="aligncenter" width="2000"] Aurora (Jennifer Lawrence) e Jim (Chris Pratt) em cena do filme Passageiros[/caption]

Passageiros sofre de uma grave crise de identidade. Quem assiste ao longa estrelado por Jennifer Lawrence e Chris Pratt tem a sensação de estar assistindo a três filmes em um - e isso não é uma coisa boa. Um pedaço de um drama existencialista aqui, outro de um romance clássico ali, um terceiro de uma típica narrativa de ação hollywoodiana no fim, e a mistura à la Frankenstein termina sem saber que público quer atingir e que história, efetivamente, quer contar.

Na trama roteirizada por Jon Spaihts e dirigida por Morten Tyldum (O Jogo da Imitação), cerca de cinco mil voluntários aceitam hibernar durante uma viagem de 120 anos a bordo da nave Avalon para colonizar o planeta Homestead II. Entre eles, o mecânico Jim (Pratt), que desperta acidentalmente 90 anos antes do prazo final. Após tentativas frustradas de conseguir ajuda, ele tenta se acostumar com uma existência solitária e sem perspectivas, indo da euforia à depressão, em cenas que lembram o protagonista da série The Last Man on Earth, numa situação bastante semelhante. Uma espécie de Náufrago no espaço.

Depois de um ano, porém, ele ganha a companhia de Aurora (Lawrence), uma escritora que vê seu sonho de escrever uma história completamente original interrompido, provavelmente para sempre. Revelar certos detalhes da dinâmica da relação inicial entre os personagens seria spoiler, mas não é segredo que os protagonistas se envolvem romanticamente. O plot, que seria perfeitamente natural em outras circunstâncias, torna-se bastante controverso (e até um tanto assustador) devido a segredos entre eles.

[caption id="attachment_2663" align="aligncenter" width="1590"] Michael Sheen é o robô Arthur, personagem mais interessante do filme[/caption]

O segundo estágio do filme se quebra graças ao robô-barman Arthur (Michael Sheen), que traz a verdade à tona de maneira inesperada e alcança o patamar de melhor criação do filme. Infelizmente, o potencial do personagem é desperdiçado, e o longa entra em sua fase mais superficial, apressada e problemática. É aqui que estão concentradas todas as cenas de ação divulgadas nos trailers, preocupadas em vender uma imagem que pouco representa Passageiros em sua totalidade.

É visível o descuido do roteiro, já pouco inspirado nos diálogos (com direito até a uma piada infame com a palavra "espaço"), em situações batidas e personagens que surgem apenas para apresentar uma solução fácil e artificial para um problema criado logo em seguida. Previsível, o desfecho se aprofunda na pieguice sem vergonha alguma e decepciona quem esperava encontrar um pouco de coerência e algum significado menos raso ao longo do filme.

Mas, depois de uma sucessão tão longa de erros, era mesmo difícil recuperar a rota. É uma pena ver que quaisquer resquícios de dilema moral e discussão ética levantados pela premissa do filme se perdem pelo caminho e caem na vala comum depressa, como se o espectador de um filme mais comercial só estivesse interessado em romance conto de fadas (sim, Aurora é referência a "Bela Adormecida") ou o falso suspense dos filmes de ação mais rasteiros. As próprias motivações dos personagens são pouco exploradas e nem o verniz do carisma da dupla de protagonistas, ambos bem em cena, consegue disfarçar o que o longa têm de menos: substância.