Acredite se quiser, tem muito “carioca da gema” que não conhece toda a cidade. A zona portuária é uma das áreas que está sendo descoberta por moradores e turistas após o projeto de revitalização da área. Não faltam projetos e atrações para levar o pessoal para a área. Nós embarcamos no tour do Circuito Histórico e Arqueológico da Herança Africana, que percorre marcos da história dos africanos trazidos para o Brasil. O passeio é feito todo a pé, às terças em horários alternados. É gratuito e conta com um guia voluntário do IPN (Instituto de Pesquisa e Memória dos Pretos Novos,).




[caption id="attachment_5035" align="aligncenter" width="979"] Largo de São Francisco da Prainha - grupos se preparando para partir[/caption]

O ponto de encontro para o início da caminhada foi o largo de São Francisco da Prainha, em frente ao tradicional Angu do Gomes. Pode-se dizer que a aula de história já começa ali, pois a praça abriga a estátua de Mercedes Baptista, a primeira bailarina negra do corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Também descobrimos que, assim como a igreja homônima que fica ali pertinho, o largo costumava ficar à beira mar - por isso o nome “Prainha”. Você já viu esse ponto carioca aqui no blog, quando seguimos o roteiro do clipe de We just dont care (P.D.A) de John Legend.


Curiosos, turistas, estudantes de história e muitos, muitos alunos do ensino fundamental e médio formaram uma "multidão" de cerca de 150 pessoas dispostas as percorrer as ruelas do circuito em plena tarde de terça-feira. A solução foi dividir a galera em dois grupos, caminhando com alguns minutos de diferença, para não tumultuar a experiência. E o primeiro ponto fica apenas à um quarteirão de distância...



Pedra do Sal


Degraus esculpidos em uma enorme rocha pelos escravos que faziam o caminho várias vezes ao dia carregando nas costas até 70kg de mercadoria que chegavam ao país via mar. Um destes produtos, é claro, era o sal que o Brasil era proibido de produzir por Portugal (que queria vender sua produção para os colonos, então obrigados a comprar). Nos raros momentos livres que esses escravos tinham, a pedra também servia de ponto de encontro, resistência e recreação - esta última feita majoritariamente com música. Essa, aliás, é uma tradição que continua até os dias de hoje: toda segunda e sexta-feira à noite tem Roda de Samba na Pedra do Sal.




[caption id="attachment_5036" align="aligncenter" width="979"] Escadarias e grafite na Pedra do Sal[/caption]

Para quem só puder passar lá de dia, além da curiosa escadaria que rende fotos interessantes de diversos ângulos, os grafites são o destaque. As figuras mudam de tempos em tempos e tem motivos culturais e sociais, mensagens e são deslumbrantes.


Subindo a pedra, seguimos pela rua Jogo da Bola para o Morro da Conceição. A pausa para fotos por ali fica no mirante-praça em frente ao ateliê Ventos do Norte. O Morro é outra particularidade carioca que merece uma visita, mas isto vai ficar para outro post. Por hora, acompanhamos o grupo caminhando pelas ruas de casinhas charmosas e atmosfera de cidade pequena que a região tem. Passamos pelo Observatório da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), e pela Ladeira Pedro Antônio, um passeio com cara de mirante, até chegarmos ao ponto mais alto do...



Jardim Suspenso do Valongo


[caption id="attachment_5037" align="aligncenter" width="1024"] Charmoso e quase desconhecido, pouca gente visita o Jardim Suspenso do Valongo.[/caption]

Por segurança, apenas a entrada lateral do jardim fica aberta permanentemente. Projetado pelo arquiteto-paisagista Luis Rey e construído em 1906 nos moldes dos jardins franceses. Fazia parte do plano urbanístico de Pereira Passos para “modernizar” a zona portuária. Antes, a área abrigava o mercado de escravos recém-chegados e toda a região do circuito era conhecida como pequena África. A modernização também tinha o intuito de apagar as marcas da escravidão e afastar a população pobre e negra da região; por isso, o Jardim faz parte do circuito.


Abandonado por muito tempo, o jardim foi reaberto ao público em 2012 após as obras de revitalização do Porto Maravilha. Plantas diversas, bancos, estátuas romanas e até uma cachoeira artificial criam uma charmosa área de descanso com vista para a cidade e para o antigo Largo do Depósito, as “lojas” onde os negros eram vendidos. Minerva, Mercúrio, Ceres e Marte são os deuses representados nas estátuas que ornamentam o espaço - réplicas das originais que já estavam lá quando o espaço foi criado e que antes ficavam no Cais da Imperatriz. Atualmente, as imagens verdadeiras estão protegidas de vândalos no Palácio da Cidade, em Botafogo.




[caption id="attachment_5038" align="aligncenter" width="1024"] O Jardim visto de cima, da rua, por dentro e sua vista para a cidade![/caption]

Caso esteja curioso, o edifício amarelo bem no meio do jardim era a casa da guarda, presente já no projeto original. Mais abaixo, de frente para a Rua Camerino (para onde o jardim está voltado), os antigos banheiros públicos foram restaurados pela prefeitura e agora servem de sede para um centro cultural: a Casa da Tia Ciata, figura importante para o surgimento do Samba.


Mais alguns passos e já estaríamos na próxima parada oficial do passeio, mas antes uma paradinha fora do roteiro.



Docas Dom Pedro II / Docas Nacional


[caption id="attachment_5039" align="aligncenter" width="1024"] Nas escadarias do Sítio Arqueológico do Cais do Valongo, com o armazém Docas Dom Pedro II ao fundo[/caption]

Projetada pelo engenheiro negro André Rebouças em 1871, foi construída sem a utilização de mão de obra escrava. Atualmente é o Galpão da Ação Cidadania, e nem sempre está aberto à visitação - mas demos sorte e pudemos dar uma olhada no prédio por dentro. Mas não fique chateado se não estiver acessível, só a visão da fachada do prédio já é uma atração e tanto que pode ser vista perfeitamente do outro lado da rua onde fica o...



Cais do Valongo / Cais da Imperatriz


Maior porto de escravos do país, recebeu mais de 500 mil africanos, entre 1811 e 1831. Com o fim do tráfico perdeu sua função, e em 1843 foi reformulado para receber a Imperatriz Teresa Cristina Maria de Bourbon, esposa de Dom Pedro II - por isso o cais tem dois nomes. Mas a construção para a imperatriz também foi aterrada em 1911 durante as obras de Pereira Passos para revitalização da área.




[caption id="attachment_5040" align="aligncenter" width="1024"] As pedras grandes são do Cais do Valongo, as menores do Cais da Imperatriz. Ao fundo, o Obelisco e o Hotel Barão de Tefé[/caption]

Por muito tempo apenas o Obelisco em homenagem à chegada de Teresa Cristina estava visível para quem passava pela região, mas as obras do Porto Maravilha revelaram ambas construções. Agora é possível ver as grandes pedras do cais original, por baixo dos paralelepípedos da atualização de 1843. O ponto é outra parada perfeita para uma pequena aula de história e para descansar por alguns minutos nas escadarias, que levam às ruínas abaixo do nível da rua, antes de seguir para a próxima parada. Descendo a Rua Sacadura Cabral, passando pela Praça da Harmonia, onde pegamos a Rua Pedro Ernesto até o...



Cemitério dos Pretos Novos


Descoberto em 1996, quando os donos de uma residência resolveram fazer uma reforma, era o único cemitério de escravos recém-chegados ao Rio. Os negros que desembarcavam muito doentes e morriam nos barracões do Valongo antes de serem vendidos, eram sepultados de forma precária no espaço. Indícios mostram que cerca de 6.000 pessoas foram sepultadas ali entre 1824 e 1830. Também foram encontrados no cemitério artefatos do cotidiano e uso diário, que revelam detalhes da vida dos escravos na época.




[caption id="attachment_5041" align="aligncenter" width="1024"] Escavações e muita história escondidas em uma residência modesta.[/caption]

Os visitantes podem observar as escavações ainda em curso, além de alguns dos artefatos e um vídeo que conta um pouco da história do cemitério e da descoberta arqueológica. Como estávamos em um dia de sorte, os arqueólogos responsáveis pela pesquisa estavam por lá, deram uma aulinha especial e responderam as nossas perguntas. Infelizmente esta também foi a parte mais tumultuada do passeio, já que os dois grupos se encontraram na pequena casa, que não comporta 150 pessoas ao mesmo tempo. Nada que paciência e boa vontade não resolvam. Demorou um pouquinho, mas todo mundo conseguiu ver tudo.


Também é possível visitar todos estes pontos por conta própria. Escolher seus favoritos, fazer seu próprio ritmo e escapar da multidão. Confira o mapa ao fim deste post para saber a localização de cada um deles e até a rota que seguimos no dia. Lembre-se de usar calçados confortáveis, chapéu e protetor solar, além de levar uma garrafa d'água; você está pronto para a jornada.




[caption id="attachment_5042" align="aligncenter" width="1024"] Na fachada do IPN, material de pesquisa e fotografias de figuras históricas e achados em exposição.[/caption]

A casa também abriga o Instituto de Pesquisa e Memória dos Pretos Novos, o IPN. Criado em 13 de maio de 2005, tem o propósito de propor reflexões e estimular projetos educativos e de pesquisa. O instituto é mantido principalmente pelo casal Guimarães, que descobriu o sítio e pelo trabalho de voluntários. Doações sempre são bem vindas.


O cemitério é o ponto final do circuito, percorrido sem pressa em cerca de duas horas, com direito a explicações bastante completas dos guias e pausas para as fotos. Como tudo é feito a pé, e o percurso inclui ladeiras e escadarias, não é uma boa pedida para quem tem grandes dificuldades de locomoção. Mas o ritmo é tranquilo e confortável para todas as faixas etárias.




Circuito Histórico e Arqueológico da Herança Africana
Horários pré-definidos: 9h ou 14h (terças-feiras, confira as datas)
Mais informações: (21) 2516-7089, das 10h às 16h30, de terça a sexta-feira
Inscrições individuais ou para grupos.

Instituto dos Pretos Novos


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