Ninguém sabia - e o departamento de marketing, propositalmente, não havia alertado o público -, mas Fragmentado era uma sequência de Corpo Fechado, um dos filmes mais cultuados de M. Night Shyamalan. Em se tratando de um novo respiro na carreira do diretor, desacreditado depois de se lançar em produções caríssimas e mal recebidas pela crítica, a rápida aparição de David Dunn (Bruce Willis) foi mais do que uma surpresa para os fãs, foi um alerta. Então Vidro poderia ser um novo hit?

Aparentemente o hype prejudicou a recepção do novo longa, que nem se compara a seus grandes fracassos mas também não se equipara a seus melhores momentos. Não é um filme exatamente necessário ou memorável, mas traz boas atuações e entretém ao realizar a amarra de um universo criado há tanto tempo (Kevin Wendell Crumb, personagem de James McAvoy, foi concebido originalmente para o primeiro filme). A grande questão que paira sobre Vidro é: como fazer mais um filme de super-heróis quando a discussão sobre a longevidade de filmes sobre super-heróis já parece interminável?

Em 2000, Corpo Fechado soava como uma novidade, inclusive por seu mergulho no estudo de personagem e no tom sombrio em vez de uma fórmula de filme de ação tradicional. Hoje, o público quer novidade - embora continue dando audiência para mais e mais versões de histórias já conhecidas. E Shyamalan, de certa forma, entrega: uma narrativa quase inteiramente ambientada dentro de uma instituição psiquiátrica, com um desfecho anticlimático.

Existem piadinhas, mas com o próprio universo dos quadrinhos, quando os personagens destrincham o que vai acontecer citando os mecanismos destas histórias que se repetem infinitamente - e, mesmo assim, continuam vendendo revistas e levando gente aos cinemas. Ainda assim, não é um filme da Marvel. Existe uma discussão mais séria sobre ética, dever e responsabilidade, mas bem longe dos dilemas das produções cinematográficas da DC. No fundo, Vidro, que traz várias cenas em lojas de HQs e retrata pessoas como nós, consumidores dessa cultura pop, evoca a nossa necessidade de acreditar em seres (ou poderes) sobre-humanos.

O twist final aqui não é o mais importante: logo em seu primeiro ato, o longa revela que não é exatamente o que parecia à primeira vista. Quando a ação começa efetivamente, descobrimos que não se trata de David (agora também conhecido por apelidos, como seus colegas mais famosos) conseguir parar a Besta, a mais perigosa das personalidades de Crumb. A questão é: o que consegue quebrá-los? A falta de fé em si mesmos - e aqui, cabe expandir o conceito para uma certa ilusão de grandeza, a noção de que é preciso algo extraordinário para dar ordem (e sentido, talvez?) ao caos que é a existência humana.

Isso fica muito claro no único personagem secundário que realmente faz diferença no filme, o filho de David, Joseph (Spencer Treat Clark), figura fundamental no filme original, que se revela o fiel assistente do pai nas suas perseguições aos bandidinhos da vizinhança. A pergunta incutida pela pretensamente enigmática psiquiatra Ellie Staple (Sarah Paulson) reverbera nele - e dá direito, inclusive, a alguns flashbacks de Corpo Fechado. Então é tudo uma grande mentira que eles contam para si mesmos?

A fragilidade do filme está na condução do tema. Não é à toa que o personagem-título não foi citado até agora neste texto. Elijah Price (Samuel L. Jackson) não só passa boa parte da projeção imóvel e aparentemente catatônico, numa cadeira de rodas, como seu plano secreto é desenvolvido de forma apressada na segunda metade do filme. Afinal, o que conta é o fator surpresa, não é mesmo? Nesse caso (e em muitos outros), não. Em Corpo Fechado, seu personagem é tão fascinante por sua obsessão, sua visão torta do mundo e sua habilidade de manipulação, que levou David e Joseph a momentos muito tensos e angustiantes. Aqui ele tem muito menos ingerência sobre o psicológico de seus antagonistas (ou seriam seus aliados?).

Tudo isso porque existe uma conspiração ainda maior em curso, guardada até o último momento para ser a reviravolta final e um gancho para uma possível continuidade desse universo. Mas toda essa trama só se transforma na parte mais decepcionante de toda a trilogia, na verdade. Curiosamente, em seu próprio filme, Mr. Glass é esvaziado e isso respinga em todos os demais personagens, que parecem sem motivação (no caso dos protagonistas) ou mesmo sem função (como as coadjuvantes Casey, interpretada por Anya Taylor-Joy, e Mrs. Price, vivida por Charlayne Woodard).

Mas há ali, no meio da bagunça que é o terceiro ato, um conceito que reflete bem os nossos dias: a manipulação do discurso, o controle da narrativa. Quem diz o que é verdade? Esse é um grande poder que os humanos buscam a qualquer custo, desde o início dos tempos.