Austeridade é a palavra que vem à mente para descrever Um Ato de Esperança, estrelado por Emma Thompson, Stanley Tucci e Fionn Whitehead. Não apenas por retratar os meandros do sistema judiciário e suas consequências nas vidas de cidadãos comuns, mas também pelo distanciamento que mantém de seus personagens durante toda a projeção, mesmo em seus momentos mais íntimos. O tom formal só não compromete totalmente a produção devido às boas performances do elenco, com destaque para a atriz, capaz de emocionar com sutilezas.

Baseado no livro A Balada de Adam Henry, de Ian McEwan, que também assina o roteiro, o filme se propõe a contar um improvável encontro entre sua protagonista, a juíza Fiona Maye (Thompson), e um jovem que faz parte de um dos complexos casos que ela julga diariamente com racionalidade e rigor jurídico. Ao enfrentar uma crise pessoal, no entanto, acaba cruzando pela primeira vez a linha que separa sua vida profissional de suas emoções. Mas essa jornada nunca se completa inteiramente, o que deixa a personagem num limbo afetivo, onde a tensão nunca atinge seu estado máximo nem se dissipa completamente.

No início do longa dirigido por Richard Eyre, conhecemos Fiona focada no trabalho e pega de surpresa pela decisão do marido, Jack (Tucci), de sair de casa para ter um caso. A inabilidade de lidar com a notícia repentina afeta a juíza, como é de se esperar, mas não sua dedicação à Justiça. Seu próximo processo envolve um paciente de 17 anos que sofre de leucemia e precisa de uma transfusão de sangue com urgência, mas se recusa a aceitar o procedimento porque é testemunha de Jeová, assim como seus pais. Na intenção de ser correta em sua sentença, ela resolve ir até o hospital para saber o que Adam (Whitehead) realmente pensa a respeito da situação.

Há uma conexão imediata, além de uma ternura quase inevitável no encontro em que ambos se encontram tão frágeis. Mas a fascinação que o jovem desenvolve pela magistrada é tão inesperada que deixa a sequência quase cômica. A partir daí, eles se encontram outras vezes, sempre por iniciativa do adolescente, impressionado pela figura que lhe desperta sentimentos conflitantes. Essa relação dúbia também ressoa em Fiona, que gosta secretamente das investidas, mesmo quando o rapaz se revela um stalker, um tipo que o cinema insiste em continuar romanceando.

Embora seja compreensível a dependência mútua que se desenvolve ali, por diferentes razões, esse relacionamento parece apressado e nunca chega a ser crível. Como a questão da religião se resolve rapidamente na história, o dilema moral se esvazia, mas o componente emocional não preenche totalmente esse lugar. É impossível dizer, por exemplo, a transformação que acontece na juíza após Adam cruzar seu caminho, já que ela nunca se mostra completamente vulnerável. Mesmo sem sua toga, ela não se despe completamente de sua couraça, o que mantém o espectador afastado o tempo todo. O resultado final é como as sessões presididas por Maye, em que o veredito racional prevalece sobre qualquer parecer impulsivo: um filme correto, solene e sem espaço para paixões.