Exuberante visualmente, empolgante musicalmente, honesto emocionalmente. São muitas as qualidades de Rocketman na criação de um retrato de Elton John para o cinema, mais especificamente no recorte que mostra sua ascensão e queda, envolto entre as armadilhas da fama, corações partidos e dependência química. O cantor e compositor surge em cena como um demônio que vai se desmontando à medida que revela mais sobre si mesmo, abrindo mão de sua couraça colorida e chamativa, a fim de trazer à tona o que tem de mais humano.

O maior trunfo do filme, dirigido por Dexter Fletcher, é o bom uso da linguagem musical: não é necessário muito esforço fazer a plateia sair da sala de exibição cantando a trilha sonora, já que o britânico coleciona inúmeros hits em tantos anos de carreira. Mas o roteiro de Lee Hall incorpora cada canção ao estado de espírito da cena, com bailarinos e coreografias, quando o momento pede, ou de forma mais intimista.

É quase mágico ver o protagonista literalmente flutuando no show que o revelou para o mundo, no clube Troubadour, em Los Angeles, ou completamente entregue, no fundo de uma piscina. Mas é igualmente poderoso ver outros personagens interpretando cada verso como verdades pessoais. Não é assim que a música também toca quem ouve, tornando-se parte da história de cada um?

Dentre todas as relações abordadas no longa, a mais bonita é a amizade com Bernie Taupin (Jamie Bell). É uma espécie de homenagem ao parceiro musical mais constante, não só como o compositor que reconhece o talento de Elton e o ajuda a chegar ao estrelato, mas como o irmão que ele gostaria de ter. E essa proximidade aparece nos momentos positivos, de apoio e incentivo, mas também de choque de realidade, quando o astro, já milionário e adorado mundo afora, precisa de um chacoalhão para voltar a si.

Os demais relacionamentos pessoais do cantor, aliás, são o coração emocional da cinebiografia, no que acaba sendo seu traço mais tradicional. A rejeição do pai, Stanley (Steve Mackintosh), e o pouco afeto recebido da mãe, Sheila (Bryce Dallas Howard), são os elementos que fundam a personalidade do pequeno Reggie Dwight (Matthew Illesley/Kit Connor) e que permanecem durante toda sua vida adulta.

Algumas pessoas temiam que o fato de o próprio biografado estar envolvido na produção do filme pudesse comprometer alguns relatos, aliviando questões mais polêmicas, como o uso de drogas e a sua declarada homossexualidade. Esse temor se mostrou infundado. O envolvimento com o agente John Reid (Richard Madden) ganha destaque na história e até uns contornos demasiadamente vilanescos. O rompimento profissional e afetivo não foi nada amistoso na vida real, é verdade, terminando em um longo processo judicial, mas a figura do empresário ganancioso e sem coração já virou uma caricatura em longas do gênero.

Aliás, é curioso que haja tempo para mostrar a típica trajetória do artista lutando pra ser reconhecido e conseguir um lugar na indústria, quando essa própria indústria quase não é mostrada. Pouco vemos da relação de Elton com outros artistas contemporâneos, seus ídolos (aqui cabem apenas menções a pessoas que ele admira) ou mesmo a recepção pela imprensa e pelos fãs da época a uma personalidade tão excêntrica. Certamente, um pouco de contexto ajudaria a dar a dimensão do impacto de sua figura no show business.

Mas, por mais pompa que aparente ter, Rocketman procura se manter fiel ao personagem principal. A opção por mostrá-lo reavaliando a própria história dá uma liberdade poética para o filme transitar com certa fluidez pela ordem cronológica dos acontecimentos, quase sempre resultando em momentos encantadores. Por outro lado, é uma pena, por exemplo, que o casamento Renate (Celinde Schoenmaker) tenha sido abordado de uma forma relâmpago na produção. Se o evento era importante o bastante para ser mencionado num filme enxuto e revelava algo da personalidade do protagonista, deveria ter durado mais do que um breve clipe.

Taron Egerton sabe que tem em mãos um grande papel e faz jus à responsabilidade. É possível ver ali um estudo minucioso de gestos e expressões do cantor e uma entrega total nas sequências mais minimalistas e nas mais apoteóticas. Em alguns takes, parece se transformar fisicamente e chega a ficar mais parecido com o ídolo. E muito disso, é claro, tem participação fundamental de um trabalho de pesquisa das equipes de caracterização e figurino, que recriaram com o máximo de fidelidade a persona de Elton John, humano e diabolicamente talentoso.