Tolkien, dirigido pelo finlandês Dome Karukoski, é guiado pelo afeto. O longa se esquiva de se apoiar no mito do escritor genial para tentar traçar um mapa definitivo da mente criativa de seu protagonista até a Terra Média. Ao contrário: recolhe memórias de infância, laços construídos na juventude e reflexões da vida adulta do autor sul-africano e tece uma sugestiva trama de possíveis influências que J.R.R. Tolkien herdou do mundo real para criar seus universos fantásticos.

A colcha de retalhos se divide em duas linhas temporais. Ao longo do filme, vemos flashes do jovem soldado (Nicholas Hoult) vivendo de perto o horror vivido nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, determinado a cumprir sua missão, tal qual um pequeno hobbit que enfrenta inimigos desconhecidos a caminho de Mordor.

Paralelamente a isso, acompanhamos sua versão criança, vivido por Harry Gilby, deixando definitivamente o ambiente bucólico (que tanto lembra o Condado) em que cresceu no interior da Inglaterra, após a morte do pai. Acompanhado do irmão mais novo e da mãe, Mabel (Laura Donnelly), que também morre precocemente, começa uma vida nova em Birmingham. Já nessa fase, John Ronald mostra interesse por lendas e histórias tão antigas quanto fascinantes e sua aptidão por línguas.

Mas é a costura de conhecimentos tão específicos com as experiências humanas que molda o futuro escritor. Haveria a Sociedade do Anel sem a T.C.B.S., formada com seus amigos inseparáveis, Robert (Albie Marber/Patrick Gibson), Christopher (Ty Tennant/Tom Glynn-Carney) e Geoffrey (Adam Bregman/Anthony Boyle)? A pianista Edith (Lily Collins), por quem o protagonista se apaixona, é mais do que uma incentivadora, é alguém com quem dialoga sobre sua criação.

Embora dê conta de uma história tradicional de amadurecimento, o roteiro de David Gleeson e Stephen Beresford abre mão de determinismos superficiais, deixando espaço para o longa apostar na inteligência do espectador com sofisticadas referências visuais à obra do autor. Há, claro, espaço para reverenciar as influências diretas, como a sequência em que o então estudante leva Edith à ópera O Anel do Nibelungo, do compositor alemão Richard Wagner, inspiração direta para O Senhor dos Anéis, uma de suas publicações mais famosas.

Mas a beleza está em citações mais sutis, como espectros feito nazgûls sobrevoam o front da Batalha do Somme, numa espécie de delírio. É também na guerra que Tolkien também se aproxima da morte, pálido como Frodo depois do ataque da Laracna, e onde recebe ajuda de um fiel escudeiro Sam (Craig Roberts). Mas existe cura e esperança na enfermaria, um espaço seguro e protegido da ganância dos homens como Valfenda.

Ao mesmo tempo em que constrói esse imaginário, Tolkien valoriza as relações entre os personagens e a jornada emocional de seu protagonista. Um dos méritos do filme é entender que tudo está conectado e que a obra de seu personagem principal não seria capaz de influenciar tanto as gerações seguintes se não fosse esse misto de estudo, técnica, prática, intuição, imaginação e sensibilidade.