O terceiro longa da franquia Toy Story encerrava de forma perfeita e madura uma saga que sempre prezou pela qualidade em suas histórias, daquelas que fazem bem ao cérebro e ao coração. Um quarto filme era mesmo necessário? Muito provavelmente não, mas, nesse caso, o retorno é surpreendentemente bem-vindo. As sacadas espirituosas estão de volta, assim como o apuro técnico da turma da Pixar, mas não só isso: Toy Story 4 traz uma jornada que empolga e emociona ao tratar, mais uma vez, de amadurecimento.

Agora brinquedo oficial de Bonnie (Madeleine McGraw no original), Woody (Tom Hanks) tem dificuldades em aceitar que não é mais a novidade da vez aos olhos de sua criança. Ao acumular sua primeira bola de poeira, vira piada para os colegas, que apontam, sem dó, que seu futuro agora é o fundo do armário. O caubói, no entanto, não se dá por vencido, e, motivado por seu eterno senso de dever, quer apoiar a pequena em seu primeiro dia na escola. Escondido, vê a dificuldade que ela tem em se adaptar, e, sem querer, acaba fornecendo a ela o material para que ela mesmo fabrique seu novo melhor amigo, Garfinho (Tony Hale).

O inusitado companheiro é feito de um garfo de plástico descartável e alguns enfeites nem tão harmoniosos, mas o resultado é bonito aos olhos de Bonnie. Já o talher precisa, ele próprio, de um período de adaptação, já que não aceita muito bem o fato de que está vivo e de que precisa ficar longe de seu tão amado lixo. Resta ao xerife manter a ordem e passar a noite em claro tentando impedir as inúmeras (e hilárias) fugas do novato.

A nova dinâmica exige sacrifício de Woody, que quer preencher a todo custo o vazio que sente ao ser abandonado por Bonnie. Focado em sua missão, ele se perde dos companheiros e acaba indo parar, junto de Garfinho, em um lugar extremamente ameaçador: um antiquário povoado por seres como Gabby Gabby (Christina Hendricks), tão doce na aparência quanto sinistra nas intenções.

Ao tentar escapar, o caubói cruza o caminho da boneca Betty (Annie Potts), de quem se separou a contragosto há anos, e seu coração (de espuma?) bate mais forte novamente. Ele fica encantado ao descobrir que ela, dada como um brinquedo perdido, tem curtido sua liberdade e tem planos maiores que ficar dentro de um quarto de uma criança. Entre encontros e desencontros, o xerife precisa tomar decisões difíceis para manter seu plano de garantir, a qualquer custo, a felicidade de sua garotinha. Mas sua confiança não é mais a mesma.

Impressiona como o roteiro consegue resgatar relacionamentos anteriores e apresentar personagens novos com tamanha fluidez, já que a nova narrativa introduz ainda figuras como os alucinados Coelhinho (Jordan Peele) e Patinho (Keegan-Michael Key), bichinhos do parque de diversão que ocupa boa parte da história, e o motociclista Duke Caboom (Keanu Reeves, em seu ano inspiradíssimo no cinema). São deles vários momentos divertidos do filme, que equilibra com maestria humor e o ritmo impecável da aventura, um traço característico da franquia, desde a sequência inicial. Além de entreter, tais cenas provocam lembranças nostálgicas no público, (bem) acostumado a acompanhar os arriscados malabarismos dos brinquedos para resgatar alguém em perigo ou evitar um desastre.

Isso tudo sem deixar de lado a emoção como fio condutor da história principal, seja nos questionamentos quase filosóficos de um garfo de plástico ou na angústia existencial de seu protagonista. Com a ajuda dos novos amigos e dos companheiros das antigas, como Buzz Lightyear (Tim Allen), que está em seu próprio (e impagável) caminho de autoconhecimento, Woody vai, aos poucos, descobrindo seu novo lugar no mundo, seu novo propósito. Toy Story 4 é inventivo, tem vigor e prova que, com criatividade e sensibilidade, o único caminho possível é "ao infinito e além".