Como encerramento da atual formação da saga dos mutantes nos cinemas, X-Men: Fênix Negra deixa um gostinho amargo de decepção. Durante toda a projeção, é inevitável a sensação de que o filme, dirigido por Simon Kinberg, poderia ter ido além e aproveita pouco seu potencial. Longe de ser épico como um capítulo importante como esse mereceria, o longa também tropeça no desenvolvimento de algumas premissas interessantes, que poderiam dar novas perspectivas aos personagens que acompanhamos por tantos anos.

O roteiro, também assinado por Kinberg, nos apresenta um panorama dos conflitos internos da pequena Jean Grey (Summer Fontana, na infância). Na sequência inicial, vemos um efeito trágico dos poderes, ainda incontroláveis, da jovem telepata: um acidente fatal envolvendo seus pais. "Adotada" por Xavier (James McAvoy), a menina tem a promessa de que pode usar seus dons para o bem e de que seu mentor vai guiá-la nesse caminho.

Já na fase adulta, algo sai errado quando os X-Men participam de um arriscado resgate de uma equipe de tripulantes americanos no espaço. Contaminada por uma força descomunal, a ruiva se torna uma bomba-relógio, sem domínio algum sobre seus poderes. O problema é que a protagonista, em sua versão mais sinistra e sombria, nunca soa tão ameaçadora quanto deveria. Já vimos que, ainda uma criança assustada, ela era capaz de ferir alguém que amava, mas sua capacidade de destruição como Fênix Negra é infinitamente maior.

Optando por muitos closes nos atores, o filme tem a clara intenção de estabelecer ligações emocionais entre os personagens. Sophie Turner, no entanto, tem dificuldades em criar nuances para a mutante, tão cheia de conflitos internos e decisões erráticas. A relação com Scott (Tye Sheridan), definitivamente, não empolga. Já a ligação com seu tutor fica abalada com a revelação de alguns segredos, numa virada um tanto melodramática para uma situação já bastante complexa.

O diretor da escola, aliás, já tinha muitas questões a resolver. Sua situação confortável na sociedade - visto como herói pelos humanos, contato direto com o presidente dos EUA, homenagens e bajulações - está por um fio. Sua necessidade de ser aceito o faz tomar decisões perigosas, e a impulsiva Mística (Jennifer Lawrence), quem diria, se torna a pessoa mais sensata nas atuais circunstâncias. O professor se vê numa enrascada, quando uma protegida se torna uma potencial inimiga, mas também sofre ao vê-la perder a confiança nele e em si mesma.

Paralelamente, quem tem um papel importante em toda essa discussão é Fera (Nicholas Hoult). Acostumado a ficar em segundo plano, praticamente o consultor científico da turma, Hank ganhou cenas boas no filme, de luto, de raiva, de dúvida sobre as próprias crenças. Talvez tenha sido dele o arco mais interessante do filme, e aí esbarramos num problema clássico: o sacrifício de personagens femininos servindo de motivação para os masculinos. Até quando?

Na tentativa de sustentar a ação, o longa opta por uma vilã desnecessária, desperdiçando o talento de Jessica Chastain em cena. Além de não dizer a que veio, sua personagem, Vuk, esvazia a grande ameaça da história, que deveria ser a própria Jean Grey. Embora os mutantes cheguem a se dividir em dois grupos - resgatando, malandramente, Magneto (Michael Fassbender) e seus capangas aleatórios para eletrizar o combate, e esquecendo, subitamente, Mercúrio (Evan Peters) -, a narrativa estaciona no quase.

Algumas cenas de ação bem coreografadas não são suficientes para salvar a produção, que deveria e poderia ter outra magnitude. A morna despedida dos amigos e rivais Magneto e Xavier é um exemplo de que o filme abriu mão de usar todos os recursos que tinha disponíveis para se tornar uma aventura apenas esquecível.