Como explicar um assassino capaz de cometer tantas atrocidades e de seduzir tanta gente, como fez Ted Bundy? Com detalhes sangrentos sobre suas vítimas? Ou com suas atitudes doces, seu carisma e seu sorriso encantador? Ao contrário do que se possa imaginar, o segundo modo não é menos assustador que o primeiro. É apavorante: basta imaginar que você é Liz Kendall (Lily Collins), que se apaixonou por um serial killer e conviveu com ele por anos, período em que o estudante de Direito se mostrou o namorado perfeito e um padrasto dedicado para sua filha pequena. E é esse ponto de vista original que destaca Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal, um filme que se esforça em trazer novidade a um caso que ganhou grande repercussão midiática na época e foi exaustivamente esmiuçado desde então.

Dada a conhecida história do homem que tratava suas vítimas com crueldade - daí o título original, Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile, palavras retiradas da sua sentença -, cada gesto romântico ou aparentemente inocente dá um frio na espinha. Porque, sim, nós já sabemos o fim do filme, e o roteiro de Michael Werwie se apropria disso. Não são gratuitas as cenas em que Bundy (Zac Efron) é associado a formas diferentes de perigo, segurando uma enorme faca, cercado de cacos de vidro ou mesmo com as mãos muito mais próximas do pescoço de Liz do que o espectador gostaria de testemunhar. Sabemos do que ele é capaz - seus violentos crimes foram confessados antes de sua morte na cadeira elétrica. Há diversos materiais históricos e audiovisuais sobre o tema, incluindo a série Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy, também dirigida pelo cineasta e documentarista Joe Berlinger. A informação é compartilhada, e isso é usado como artifício de tensão dramática.

Baseado no livro The Phantom Prince: My Life with Ted Bundy, escrito por Elizabeth Kendall, o filme é mais forte quando se mantém do lado de Liz, cheio de lacunas. É dela a jornada principal, e as reviravoltas finais mostram como ela lidou com tudo isso e como talvez mentir para si mesma - ou se conceder o benefício da dúvida - ajudou a sobreviver por tantos anos. Afinal, ter a certeza de que um assassino cruel fez parte de sua vida é algo extremamente perturbador. O filme de terror começa quando você descobre que a sua comédia romântica não tem final feliz, que tudo não passou de uma farsa, que outras mulheres iguais a você tiveram um destino terrível e que você convidou o mal para sua casa e para sua vida e não conseguiu enxergar o monstro por trás daquele sorriso encantador. E essa é a tese do longa: um criminoso capaz de monstruosidades é capaz de simular humanidade. Quem está salvo diante disso?

As contradições inerentes a esse sociopata sedutor tem momentos brilhantes, como a montagem com a família feliz e a narração dos crimes em série cometidos pelo assassino. O contraste é a tradução do próprio Bundy, com sua porção criminosa protegida pelo disfarce perfeito. Ele usa a seu favor sua beleza física, capaz não só de atrair jovens do país inteiro, mobilizadas durante seu julgamento, transmitido pela TV, com grande repercussão, como de envolver completamente Carole Anne (Kaya Scodelario), com quem teve uma filha, já depois de preso. Seu carisma e sua habilidade de persuasão e manipulação é capaz de despertar, inclusive a admiração do juiz Edward D. Cowart (John Malkovich). É perversidade em estado puro, o que fica cada vez mais evidente a cada vez que ele nega ter cometido os assassinatos e se mostra indignado com a simples desconfiança de que ele seria o autor dos crimes. A face do mal pode ser mesmo irresistível.