Quem nasce em Bacurau é o quê? É gente. A afirmação simples, que provoca risos na plateia pelo fator surpresa, carrega mais força do que aparenta à primeira vista. Um dos temas que perpassa o filme dirigido por Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho é o de identidade, e embora conte com personagens memoráveis, é o senso de comunidade que prevalece.

É a consciência de grupo que faz o povoado subverter certas práticas da velha política. É a memória coletiva que inscreve seus habitantes na linha do tempo que resgata o passado e lhes garante um futuro. Sim, eles estão no mapa. Eles existem e têm voz.

A população de Bacurau vive à margem e, por isso mesmo, é vista de cima para baixo por quem chega de fora. Seja o prefeito populista (e mais ingênuo do que imagina) ou os turistas que passam por aquelas bandas (idem).

As mortes da gente local perturbam. São violentas, repentinas, sem motivo aparente. O roteiro provocativo dosa bem o mistério e não decepciona na revelação de quem ou o quê está por trás dos crimes. Mas não estamos falando de uma história de detetive, onde o que importam é o encaixe das peças.

O mal estar é inevitável quando o público descobre o que está acontecendo. Somos presas também. O horror vem de enxergar que, enquanto uns têm sua humanidade arrancada a balas, outros simplesmente abrem mão dessa característica.

O elenco do filme é uma preciosidade. Desde Silvero Pereira, sucesso recente na TV e totalmente desconstruído na pele de Lunga, até rostos menos conhecidos, que brilham igualmente.

Ver Bacurau chorar seus mortos sem entender por que estão sendo dizimados é traçar um paralelo imediato com as mães das favelas que perdem seus filhos, com os moradores das periferias e dos interiores do Brasil que são exterminados diariamente sem nem virar notícia. São eles por eles mesmos. Como não estão no mapa, ninguém se importa com suas mortes literais, que furam camisas de uniformes de crianças, ou metafóricas, com a retirada de seus direitos e sua dignidade.

A catarse que Bacurau provoca só existe porque nos permite enxergar a nós mesmos naquela gente massacrada. Porque entendemos que aquela comunidade só pode oferecer uma resposta: diante da barbárie, só existe um lugar para se posicionar. E o problema do Brasil de hoje, que externa os preconceitos e o ódio que carrega há tantos anos, é que é necessário se reconhecer como o excluído, se ver como comunidade, reconhecer a humanidade do outro. Se for, vá na paz. Se ficar, vai ter luta.