Ilusória para quem consome e para quem está inserido nela e não enxerga as engrenagens. Assim é a indústria do entretenimento retratada em Era uma Vez... em Hollywood. No papel de Rick, um astro do cinema em plena decadência, Leonardo diCaprio protagoniza a crítica, válida e contundente. Seu personagem, apesar do tom de sátira, poderia ficar caricato, mas existe ali um sofrimento de verdade com o adeus aos dias de glória.

Ambientado na Los Angeles de 1969, o filme se apoia na parceria do protagonista com Cliff (Brad Pitt), dublê/motorista/conselheiro que participa de decisões importantes do patrão. A parceria funciona e convence: é uma relação bacana de admiração e respeito, que rende momentos divertidos, graças ao contraste das personalidades. Rick está num momento sensível. Por mais que queira ajudar, Cliff tem uma reputação a zelar. É o personagem que personifica esse lado mais estereotipado da masculinidade alfa - não à toa o cara que resolve sair na mão com Bruce Lee...

Os dois personagens fictícios são a parte mais interessante do filme e, curiosamente, a que tem mais verdade. A terceira ponta da história, Sharon Tate (Margot Robbie), não só é idealizada, como também secundária. A atriz é retratada como um bibelô - um enfeite na tela, sempre sorrindo, dançando e mostrando seus pés nas horas vagas. Em vez de uma personagem, é quase um objeto de cena. A sequência mais próxima de revelar algo sobre ela, a do cinema, pode soar como uma homenagem, mas o caminho é questionável. O filme não está interessado em mostrar quem ela era, o que pensava, como se relacionava com as pessoas, alguém de carne e osso. No lugar disso, uma imagem etérea, quase irreal.

Já que falamos de objetos, é impossível - especialmente para uma mulher - não se incomodar com a forma sexista que Era uma Vez representa as mulheres. A câmera está sempre a postos para mostrar pedaços de corpos de forma a satisfazer o desejo ou a imaginação masculina. Somem-se a isso os pouquíssimos diálogos de Margot Robbie e sim, temos um problema, que o diretor simplesmente preferiu ignorar quando questionado durante o lançamento em Cannes.

Com isso, a grande personagem feminina do filme é uma garota que tem poucas cenas (algumas das melhores do longa). Trata-se de Trudi (Julia Butters), colega de elenco de Rick, à primeira vista uma encarnação das crianças prodígio - adulta até demais para sua idade, ambiciosa, geniosa e até cruel com as palavras. Mas na cena seguinte, consegue mostrar outras facetas e até comover. Um arco mais bem desenvolvido que o de Sharon, diga-se.

Outro ponto alto do filme é a sequência no rancho dos hippies que formam a família Manson, tensa, digna de filmes de faroeste, mas ainda mais assustadora porque traz consigo a carga de uma tragédia real. Ela desemboca num punhados de cenas tragicômicas que culminam no desfecho do filme. E o humor tem um papel fundamental aqui na catarse de parte da plateia, mas em termos de construção de narrativa, a solução deixa a desejar. Afinal, o que é motivação de personagem quando se tem o acaso trabalhando a favor? Em termos de releitura da História, Tarantino já fez escolhas mais felizes. Bastardos Inglórios não nos deixa mentir.