O que destaca Simonal de outras tantas cinebiografias que você já viu antes não são suas escolhas narrativas ou estéticas. A fórmula do filme dirigido por Leonardo Domingues é basicamente a mesma de dramas que retratam ascensão e queda de um artista da música. A trajetória do protagonista, no entanto, é única, já que as causas de seu ostracismo, que durou décadas (inclusive após sua morte, em 2000), fala muito sobre o Brasil, inclusive o de hoje. O maior mérito da obra, portanto, está nesse debate e no reconhecimento de um cantor fenomenal que não merece ser esquecido pelas novas gerações.

O caminho de Wilson Simonal (Fabrício Boliveira) até o sucesso é similar ao de outros grandes nomes da MPB: a simpatia de Carlos Imperial (Leandro Hassum) e o incentivo de Miele (João Velho) e Ronaldo Bôscoli (Rafael Sieg) foram fundamentais para sua projeção, depois de um tempo na estrada com o grupo Dry Boys. O suingue, o bom humor, o charme do intérprete não seduzem só Tereza (Isis Valverde), a futura mãe de seus filhos, mas também o público. Uma das cenas que melhor representa isso é um plano-sequência em que ele "abandona" o palco durante um programa de TV ao vivo para tomar uma no bar ao lado da emissora de TV e volta para apenas retomar o coro. Tamanha conexão com o público não é algo que se aprende, é um dom natural, quase mágico.

Mas o longa, que tem roteiro assinado por Victor Atherino, não se furta em mostrar que a personalidade tão carismática do artista tinha também seus defeitos. Traições e um certo deslumbramento com a fama e o dinheiro repentino também estão lá. Ainda assim, estamos ainda em um terreno conhecido. É somente quando adentra nos rumores que decretaram o fim da carreira de Simonal que o filme vai entrando em questões mais específicas e menos genéricas, ao tentar esclarecer a onda de boatos de que o cantor seria um dedo-duro dos militares em plena ditadura.

A história apresentada não retrata o artista como alguém inocente, mas alguém que tomou uma decisão completamente equivocada - a de usar a proximidade com um agente do DOPS (Caco Ciocler) para dar um susto em um contador (Bruce Gomlevsky) que o estaria roubando. O ato de violência injustificada foi denunciado e se espalhou como pólvora, acendendo uma fogueira que nunca mais seria apagada. Uma cena muito rápida, em que o cantor é hostilizado por "delatar Gil e Caetano", ilustra a fama de X9, que permaneceu por anos e anos. O mito havia engolido o homem, o artista.

O racismo, que não perdoa nem um artista bem-sucedido como Simonal, aparece brevemente no filme, em uma menção mais direta, numa pergunta preconceituosa de um repórter durante uma entrevista, e de forma mais contundente já no trecho final do filme, quando o cantor divide com Elis Regina (Lilian Menezes) sua angústia. Ela, criticada por se apresentar em uma apresentação militar, acabou sendo perdoada pela opinião pública. Ele não teria o mesmo destino.

Pela proximidade com o fenômeno das fake news e dos linchamentos virtuais irresponsáveis, o filme se torna bastante atual. Com produção musical de Simoninha e Max Castro, filhos do cantor, o longa de ficção faz parte de uma onda recente de obras que tentam resgatar essa imagem tão arranhada por todo esse tempo, como o documentário Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei. A cena final dá um nó na garganta por ilustrar de forma tão poética como o homem que regeu 30 mil pessoas num Maracanãzinho lotado, em 1969, perdeu microfone, palco, voz.