Escolher o ponto de vista do vilão é sempre uma decisão arriscada em qualquer história. Porque alçá-lo ao ponto de protagonista é, forçosamente, fazer com que o espectador enxergue o mundo sob suas lentes. Humanizá-lo, portanto, é um fator capaz de despertar empatia, por mais condenáveis que sejam suas atitudes. Coringa, dirigido por Todd Phillips, parece ciente do risco e se apoia num tom crítico - a sociedade atual é uma máquina de moer gente, e a violência que ela gera se volta contra sua criadora em algum momento. Mas existem alguns tropeços nessa construção de mundo. Por outro lado, o filme é muito mais pungente no mergulho psicológico de um sociopata, uma opção que se beneficia demais da performance magistral de Joaquin Phoenix, que impressiona pelas minúcias: a risada marcante é só a mais evidente, mas o personagem nasce no andar torto, no tom de voz, no olhar enviesado, na dança estranha e sinistra.

Arthur Fleck (Phoenix) ganha a vida, ou tenta, como palhaço de aluguel, contratado para bicos como fazer propaganda de lojas ou animar crianças internadas em um hospital. Logo no início, acompanhamos uma sequência em que ele é vítima de uma violência gratuita. Sua aparência frágil e vulnerável - potencializada pela magreza do intérprete -, no entanto, nunca deixa de ser perturbadora. Portador de transtornos psicológicos, administrados com medicamentos e sessões com uma assistente social, e de um distúrbio que provoca risadas descontroladas, ele está sempre no limite e prestes a dizer ou fazer algo que deixa o interlocutor desconfortável. É um sujeito inadequado, que afirma nunca ter tido um dia feliz em sua vida.

Sua principal responsabilidade é cuidar da mãe, Penny (Frances Conroy), que vive numa realidade própria. Ela tem a ilusão de que seu ex-patrão, Thomas Wayne (Brett Cullen), se preocuparia com as dificuldades em que os dois vivem e, claro, resolveria a questão. Mas, se ela parece se importar mais com os problemas financeiros da família (o filho se limita a dizer para ela "não se preocupar com dinheiro"), é difícil dizer quem devaneia mais. O sonho de Arthur em ser comediante e reconhecido pelo ídolo, o apresentador de TV Murray Frank (Robert De Niro), parece distante demais.

A alienação, aliás, é um ponto-chave no desenvolvimento do roteiro de Todd Phillips e Scott Silver. Não é só uma questão de uma percepção alterada da realidade. Existe uma completa dissociação de Arthur com seu entorno em muitos momentos, e isso diz muito sobre o niilismo do protagonista. O movimento que ele inicia, inspira e "lidera" acontece à sua revelia. Tudo que vemos é uma consequência não planejada de seus atos.

Seu fascínio pelo caos em que Gotham mergulha a partir de seus primeiros atos violentos não deixa de ser uma grande busca pelo reconhecimento. Ele diz, a certa altura, que as pessoas estão começando a notar que ele existe. Esse é um ponto marcante que se mantém à medida que alguns eventos alteram radicalmente sua trajetória: ele é narcisista demais para se preocupar com a repercussão de seus crimes. A questão não é instigar o caos nem provar um ponto. É algo que simplesmente foge ao seu controle, mas ele se apropria do discurso quando lhe convém.

Existe uma certa ironia nessa apatia social, e uma leitura possível é a do nascimento da idolatria descabida por um desajustado moldado pela dor e mergulhado no próprio ego. Um movimento, que como vemos no crescimento do neofascismo, tem seu espelho no mundo real. O modo como esse pano de fundo é costurado, contudo, é um pouco frouxo. Os tais protestos contra os ricos da cidade, que inflamam da noite para o dia os cidadãos de Gotham, se justificam? Por que o Palhaço do Crime viraria um símbolo se o filme nem perde tempo explicando quem são suas vítimas?

A figura a quem ele se opõe, de certo modo, é Thomas Wayne, que não deixa de ser uma pessoa idealizada (para o bem e para o mal): um magnata, que, em teoria, se aproveita da situação para conseguir se projetar como uma esperança por dias melhores para a população. Coringa é, portanto, um vilão sem herói. Bruce Wayne é apenas uma criança, e o filme deixa no ar a ideia de que Batman seria, até, um produto das ações do próprio adversário.

Ao lado do Homem-Morcego, Coringa é alguém que amedronta e perturba, é algo a ser combatido. Em seu próprio filme, é alguém que tem voz, o que, por si só, justifica o temor de que o longa poderia ser apropriado pelos incels (os autoproclamados celibatários involuntários). Embora a misoginia não seja um traço - frequente no mundo real - explorado no personagem, eles se vem como injustiçados que têm o direito de cobrar o que lhes é "devido" de forma violenta. Arthur não age, simplesmente; ele reage: primeiro, ele é a vítima. Não é o caso de dizer que a adaptação faça apologia da violência ou do discurso, mas de reconhecer que esse é um assunto que não se pode ignorar. Que sirva para o debate.