É sintomático que a maior parte dos textos sobre Projeto Gemini se debruce sobre aspectos técnicos e novidades tecnológicas. O filme dirigido por Ang Lee e estrelado por Will Smith é mais embalagem do que conteúdo. A imagem de alta definição pode ser um atrativo nos momentos iniciais para os mais aficionados, mas não passa disso. Funciona como marketing e também como distração para uma história rasa e mal construída.

O rejuvenescimento digital do protagonista é bem-sucedida na maior parte do tempo, mas está longe de ser o maior trunfo do longa. O diretor é habilidoso nas cenas de ação e conta com uma equipe espetacular de dublês, edição de imagem e som. São esses elementos, mais do que roteiro ou interpretações, que garantem a dose mínima de entretenimento que a plateia espera.

O realizador parece ciente disso, já que são sequências longas - às vezes, excessivamente - e bastante frequentes em sua 1h57 de projeção. A sensação de quem assiste é, muitas vezes, a de estar dentro de um jogo de videogame de primeira pessoa. De novo, pode agradar aos fãs mais devotos da modalidade, mas se torna eventualmente um recurso repetitivo e cansativo.

Mas, e a história, afinal? Um agente habilidoso em eliminar inimigos, disposto a mudar de vida, descobre que foi passado para trás por pessoas de sua confiança e que a aposentadoria não vai ser tão fácil assim. Sim, lembra pelo menos uma dezena de outras produções que você já viu. Para complicar, não há um personagem cativante para tornar a jornada um pouco mais agradável.

Mal conhecemos Henry Brogan (Smith) o suficiente para nos importarmos com qualquer coisa que acontece com ele. Danny Zakarweski (Mary Elizabeth Winstead) sofre de um mal parecido. Clive Owen, que interpreta o antagonista Clay Verris, parece uma caricatura de si mesmo num papel maniqueísta que só.

Falta charme, falta humor e falta, principalmente, profundidade na história. Jason Bourne está aí para provar que uma franquia de ação pode ter adrenalina sem deixar de lado discussões sobre identidade e ética, o que parece ser sugerido aqui, mas que nunca chega a se desenvolver. O que Projeto Gemini faz é nos brindar com metáforas inacreditáveis, como Brogan afirmando que ultimamente não consegue se olhar no espelho até dar de cara com seu jovem clone, adivinhem, num espelho. O resultado é esquecível e um desperdício de talentos.